O poder do desconhecido
Todos nós temos a tendência natural de temer o desconhecido,
o ser humano é um animal extremamente cômodo, entrega-se a rotina em uma
facilidade espantosa. Ao fazer um caminho durante apenas três dias seguidos já
paramos de reparar nele. Por essa razão, não gostamos de ninguém que nos traga
desafios novos. O chefe odeia funcionários problemas, funcionários odeiam
chefes que todo dia inventam moda, alunos odeiam professores que “inventam”
trabalhos, exercícios. Em resumo, odiamos tudo que nos tira de nosso marasmo,
de nossa vidinha rotineira.
Carla como todo ser humano se enquadra nessas especificidades,
mãe de dois filhos, esposa amorosa, boa profissional, adorava sua vida e sua
doce rotina de trabalho- casa, casa-trabalho, sair com os filhos e o marido no
final de semana e voltar a rotina semanal. Mas, o desconhecido nos espreita e a
qualquer momento pode nos abordar. Uma noite, Carla chegou e subiu ao seu
quarto, iria tomar um banho, para depois preparar o jantar, chegou ao seu quarto
e começou a se despir.
Ela não havia reparado que a janela estava aberta, ao tirar
o sutiã tomou um susto. Do outro lado da rua havia um homem, ela pegou a roupa
se cobriu e encostou-se na parede. Correndo fechou a janela. Quem seria aquele
homem? Em sua rotina, nunca havia reparado que morava um homem na casa em
frente. Será que ele a observava todas as noites? Será que já tinha visto
alguma coisa? Que horror! Pensou.
Após o banho, foi jantar com sua família, mas a imagem daquele
sujeito não saia de sua cabeça. Pela manhã iria reparar se via algum sujeito.
Talvez até fosse tomar satisfação. Pela manhã, acordou, tomou banho e saiu
apressada. Olhou para a casa em frente e nada! Parecia deserta, nada ali parecia
ou denunciava a presença de alguém. Ficou instigada, mas foi trabalhar. A noite
quando voltou, olhou para a casa e o mesmo cenário de lugar abandonado.
Subiu, seguiu sua rotina, foi banhar, ao tirar a roupa viu o
mesmo homem. Tomou um susto, apagou a luz, foi a janela e viu o homem, ele de binóculo
a observava, ficou com medo, atormentada, pensou em avisar o marido, mas achou
por bem não. No outro dia, a casa continuava a aparecer abandonada. Será que
era outro vizinho que invadia a casa para olhá-la? Poderia ser, mas ela morava
na região há muito tempo e não conhecia ninguém que pudesse fazer isso. Nos
dias seguintes, todas as noites acontecia a mesma coisa: o homem a observava.
2.
O que no inicio lhe causava medo, passou a lhe instigar.
Afinal, era um jogo de sedução que ela travava com um desconhecido. Carla
casada há 10 anos tinha para si que era incapaz de seduzir um homem como estava
acontecendo naquele momento. Ele não faltava uma noite, se mostrava louco,
excitado por ela e ela estava começando a gostar do jogo, começou a deixar como
que por descuido a janela entreaberta, se mostrava, rebolava, exagerava nos
movimentos, passava longos minutos passando creme em seu corpo. Tenho certeza
de que ele me acha atraente, pensava. Imaginava ele se tocando para ela e isso
aumentava seu desejo.
Corria para o banho e nele se demorava por longos minutos,
imaginava situações, sonhava, seu corpo pegava fogo, seu sexo pulsava. O dia
dela era esperar a noite para que aquela disputa silenciosa, travada com um
desconhecido, recomeçasse. Abafava sua respiração ofegante para que não fosse
denunciada. Já não aguentava mais, queria, precisava, desejava ardentemente
saber quem era aquele homem. Seus sonhos eram povoados por situações quentes
nos quais acordava molhada de suor e prazer.
Meu Deus! Não me conheço mais! Sempre fui centrada,
dedicada, pragmática. Agora estou mexida por alguém de quem não sei nada! Uma
sombra. Sim, Carla já não pensava, a razão há algum tempo a tinha lhe deixado.
Era um corpo guiado pelo desejo, sua pele queimava, as horas de seu dia se
arrastavam a espera daquele encontro com uma sombra sem nome, sem forma.
Não havia mais racionalidade, era apenas qualidades, formas
que despertavam um sentimento arrebatador. Não havia mais concentração, não
havia mais paz, nada a satisfazia, olhava sem ver, escutava sem ouvir, sua
cabeça era uma caixa de ressonância de seus impulsos emocionais. O desejo em
sua forma mais primitiva. Às vezes pensava que tudo não passava de ilusão, pois
durante o dia nunca tinha visto o sujeito e como desejava vê-lo, tocá-lo,
senti-lo, porém em nenhum momento o tinha visto.
Em uma noite, estava na sala vendo televisão com a família,
o telefone tocou, ela atendeu, antes que falasse algo voz rouca, grave e decidida
disse: Sou eu! Estou lhe esperando varanda! Está atrasada. Vem agora!
